O Tigre e o Sonho

O capim já não tinha textura, era só uma coisinha comprida e verde que crescia junto com outros milhares de coisinhas compridas e que vez por outra se moviam com o vento que soprava. Também era o vento que movia as folhas e os galhos das árvores e lhe davam aquele movimento oscilante que brincava diante de seus olhos entre a luz e a escuridão, assim como era o vento a trazer os cheiros de que já não se lembrava. Perto havia água, mas o som dela tinha morrido a muito tempo em seus ouvidos e seu frescor também havia desaparecido. Caminhar por ali, era caminhar entre lembranças desbotadas e quase totalmente esquecidas. As texturas, os cheiros, os sons e as sensações, todos esquecidos. Era uma imagem. Um sonho.
Nada mais.
O som metálico da porta abrindo fez com que abrisse os olhos e erguesse lentamente o corpo. Com passos lentos saiu do pequeno espaço fechado e cheio de palha, velha e ressequida, onde descansava e seguiu adiante pelo chão liso e cinzento.  Um passo diante do outro, e enquanto andava, a pele que antes era lustrosa e brilhante, agora opaca e cheia de falhas, balançava caída sobre o corpo magro e ossudo. Sem muita vontade andou até a sombra da cobertura que protegia uma parte do cercado e deitou sobre o chão morno.
Sem vontade nenhuma moveu a cabeça para o lado, os olhos já não viam mais o que havia ali. Eram tantos anos naquele lugar sempre igual, que se ficasse cego seria capaz de se mover da mesma forma e sequer notariam a diferença. Bocejou abrindo bem a boca e expondo os dentes brancos e perfeitos. Ainda possuía todos eles e as unhas também, apesar de estarem desfiando pela falta de uso.
O sol subiu no céu e desceu como todos os dias. Todos iguais. Antes de escurecer retirou-se para dentro do cubículo onde ficava a noite. Era sempre assim.
Os sonhos desbotados começaram a escassear cada vez mais e com o passar do tempo, quando a porta metálica era aberta, já não se dava mais ao trabalho de ir até a sombra morna.
Um dia a porta não mais abriu. Não fez diferença nenhuma...
Um dia ou será que era uma noite? Já não sabia, pois os olhos já estavam tão cansados de olhar sem ver que perdeu a noção de um ou de outro. A porta do outro lado que nunca abria, moveu-se com um rangido alto e seco. Era algo diferente, mesmo assim não o suficiente para levantar e ir até ela. Algo bateu no metal depois da porta e um odor de carne fresca chegou até onde estava. Ergueu a cabeça e uma vara foi enfiada através das grades da outra porta.
No início não se perturbou com a cutucada, mas a insistência dela fez com que se levantasse e resmungasse. A insistência aumentou e ela parecia querer empurrá-lo na direção da porta aberta. Incomodado e expondo os dentes levemente, passou pela porta e saiu em uma jaula mais apertada, havia muita palha nova no chão e em um canto um pedaço de carne. Assim que chegou até ela, a porta as suas costas fechou, e do lado de fora vieram sons humanos. A nova jaula tinha apenas alguns buracos pequenos por onde entrava um pouco de luz, cheiros e sons confusos. E ela balançava, balançava muito. Comeu a carne e dormiu.
O tempo passou entre cochilos e roncos estranhos, até que finalmente o ronco cessou e ao invés de balançar, a jaula foi arrastada e sentiu que descia até tocar o chão com um solavanco. Vários gritos humanos se misturaram e então de repente cessaram.
Silêncio.
Por um longo tempo nada aconteceu, então a porta da jaula subiu e um vento fresco e cheio de odores invadiu o pequeno espaço. Por alguns segundos ficou tonto com a intensidade, sem conseguir identificar nenhum deles e as narinas abriram-se mais, os olhos semicerrando-se com a luz. Levantou lentamente e foi até a porta.
O que havia além dela parecia com o antigo sonho desbotado, mas ali havia cores brilhantes, muitos sons e toda aquela profusão de odores. Havia vida. Ficou parado respirando com força, esperando acordar na velha jaula. A boca aberta, sentindo o gosto dos cheiros, por um longo tempo. Esperava ver tudo desaparecer e abrir os olhos para a aridez solitária de sempre do cercado. Mas nada aconteceu.
O sonho continuava ali.
Com um impulso saltou para dentro do sonho. Sentiu sob as patas a maciez da grama e o sabor do vento. Era tão bom pisar nela. Com medo de acordar andou mais um pouco, para mais longe da jaula e quando olhou para trás, para ver se estava longe o suficiente, para evitar ser pego por ela, viu que humanos a retiravam dali e se afastavam. Olhou para a frente, deu mais alguns passos, as patas amassando a grama e sentindo a terra embaixo delas.
Já não era sonho.


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